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Comecei a escrever no momento em que percebi que só pensar não mais me satisfazia.

Precisava transbordar todo aquele pensamento que só ao meu universo de idéias pertencia.

Hoje, escrevo por pura necessidade, por irresistível vício e por agradável teimosia.




Claudia Pinelli Rêgo Fernandes ®



sexta-feira, abril 29, 2005

Vida, louca vida...


Tree in the snow - Ana Martins Posted by Hello

(Essa bela foto tirada por uma amiga muito querida, a Ana, consegue refletir o clima que está fazendo dentro de mim nesse momento.)


Às vezes me pergunto, por que algumas pessoas insistem em ser crédulas, em crer na essência humana, numa essência que ligaria todos os seres através de um elo de delicadeza, harmonia, compreensão, altruísmo, e pureza? Que pessoas são essas que conseguem manter essa postura num mundo que se revela tão hostil? E com uma ponta de tristeza, dou a resposta: só as mais ingênuas e/ou as mais burras...

Digo as mais ingênuas por que estas ainda mantêm um sentimento genuinamente puro dentro delas, levando-as a acreditar no outro e julgar que esse outro também possui os mesmos sentimentos para com elas, logo acreditariam conscientemente nesse outro pelo simples fato de acharem estar perante um semelhante, um parceiro, e isso definitivamente não deveria ser ruim...

Digo as mais burras por já lidarem com pessoas não necessariamente generosas e gentis como elas há um certo tempo e ainda assim permanecerem cegas para a dura e cruel realidade que está diante delas, realidade esta que não aceita comportamentos inocentes e nobres, porque a realidade não tem nada de inocente e nobre..Pelo contrário..E apesar de toda essa experiência negativa, continuam a acreditar tolamente na bondade do outro, mesmo já tendo sido vítimas de inúmeras decepções.

Às vezes conseguimos ser as duas.. Inocentes e burras.. ... E aqui vai uma clara auto-crítica, pois creio me inserir, surpreendentemente, nas duas hipóteses.

De qualquer forma, o fato de se identificar com um dos tipos acima, já cria em você uma sensação de “despertencimento”. Você sente como se não fizesse parte dessa realidade vil e mesquinha em que todos nós participamos como atores. Atores porque você termina por não viver no sentido mais simples da palavra, mas atuar nessa peça trágica, para que você, mesmo sendo diferente, consiga parecer igual..

Os que conseguem atuar da forma em que está previsto no roteiro dessa peça insana, isto é, esquecendo a bondade, gentileza e partindo para a insensibilidade, indelicadeza e individualismo, como é exigido, terminam por receber os papéis principais, conseguem ser os tão sonhados protagonistas. E sempre serão os vitoriosos, os heróis, os mocinhos.

Os que não conseguem se adaptar ao esquema preestabelecido, isto é, insiste na bondade e respeito pelo próximo apesar de tudo, bondade e respeito esses que podem ser conseqüências da inocência ou da burrice, ou das duas concomitantemente, não importa, esses acabam com os papéis secundários, são os coadjuvantes. E sempre serão os perdedores, os bandidos, os vilões.

A vida real também é assim.. Paradoxal e injusta.

As pessoas más, cruéis e rudes são as fortes, as consideradas valorosas, poderosas... Sempre “se dão bem”.

As pessoas boas, generosas e delicadas são as fracas, bobas, sentimentais e se forem do sexo masculino, serão os efeminados, sempre pejorativamente falando. E por sua vez, sempre “se dão mal”.

Essas deturpações mostram o grau de inversão de valores com a qual estamos acostumados a conviver e de tão habituados que estamos, encaramos como verdade e como regra aquilo que nos impõem.

Daí surge outra pergunta que não quer calar: O que é mais sensato? Qual atitude seria a mais correta a se tomar?

Entrar no jogo e dançar conforme a música do que é considerado padrão e comum? Ser mais um na multidão e caminhar tranqüilamente na companhia dos grossos e sarcásticos, mas felizes?

Ou lutar até o fim pelo direito de ser diferente, de ser bom, de ser gentil, de ser amoroso, de ser delicado, de ser respeitoso, errar sim, e p q não, mas errar e pedir perdão, enfim, de ser humano e ainda assim ser nobre, mesmo que para isso, tenhamos que ser considerados como menores, inferiores e fracos e sempre tomarmos muitas cacetadas pelo caminho?

Será que essas cacetadas não deveriam nos fazer enxergar que esse caminho é tortuoso demais, e que nos dará muito trabalho percorrê-lo sem nenhuma seqüela?

Ou será que o caminho é assim difícil mesmo, justamente para selecionar somente aqueles que perseverarão nessa luta?

Às vezes erramos... Todos erramos, sem exceção... Quem não errou uma vez na vida?? Mas creio que ainda é melhor "errar" achando que fez o bem, do que "acertar" sabendo que fez o mal...


E como diz o Edson Marques, " Parece loucura, mas é mesmo.."

[Quero só sublinhar que o que escrevo aqui neste blog não tem necessariamente relação com ninguém específico, porque às vezes algumas pessoas bancam "Sherlock Holmes" e acham que conseguem enxergar pistas aqui, não sei como, e tomam algumas afirmações que faço como pessoais. Quando quis falar diretamente para alguém, este alguém soube, com toda certeza. E além disso, o que escrevo não tem obrigação de agradar a todos, só deve ter relação comigo, com minhas angústias, inquietações e questionamentos e só precisa agradar a mim.. Mesmo que termine agradando a muitos, o que me deixa feliz.. Mas que, às vezes, acabe desagradando a alguns também, infelizmente.]

Bjo.

Música: Radiohead – Creep.

13 comentários:

Manuel Sá disse...

Bondade, maldade... eu acredito que pensar dessa maneira não adianta. Esse dualismo é extremamente relativo pois eu já vi pessoas que em muitas situações são bondosas e em outras são extemamente maldosas. Ai entra a questão da integridade: até onde a pessoa é integralmente bondosa? Até onde ensinar através da bondade vale a pena? Não seria talvez mais interessante ensinar através da soma da bondade e da maldade? As vezes são palavras que soam estranho pra mim, algo como a metalinguagem que muitos de nós não consegue distinguir, compreender, decodificar. Acredito que rotular pela bondade ou pela maldade é um preconceito necessário, já que ser prudente é imaginar o que poderia acontecer pra não se machucar.
Eu acredito que o essencial é saber escolher o que se quer da vida, se é bom ou mal, isso vai ser o peso de toda uma sociedade e seus valores. Em tudo se ganha e se perde, ou seja, existe uma multiplicação acontecendo, uma eterna imersão.
Ser bom é burrice? Não concordo. Ghandi fez o que fez não só pela bondade bruta que exaltava, mas pela necessidade de passar uma mensagem. O grande valor da bondade está na mensagem e na reflexão que ela trará às pessoas, nos mais diversos níveis interpessoais. Bondade como mensagagem, como crença, como despertador, é nisso que eu acredito.

Ramiro disse...

Eu te compreendo,Claudia. E o que não falta é poeta que concorde contigo. Os poetas estão de acordo contigo, Claudia. Não concordam contigo os sórdidos,os hipócritas, os sádicos, os dissimulados,que usam toda essa retórica perniciosa em proveito próprio.

Deixo duas versos de um poeta popular:

"Quem me dera ao menos uma vez entender como um só 'Deus' ao mesmo tempo é tres, esse mesmo Deus foi morto por vocês[...]"

"Quem me dera ao menos uma vez, acreditar, que o mundo é perfeito e que todas as pessoas são felizes[...]"

o nome da música é "Indios".Preste bem a atenção à essa letra, ela diz muito sobre essa apreensão que você expressou em seu post.

Abraços,
RR

MarcOwaR disse...

Ignorance is bliss
Kill all the white people

Cel.W.Trautman(forças especiais) disse...

A única coisa que um soldado deve esperar da pátria é uma cova rasa na retaguarda profunda do inimigo e mais nada.

Anônimo disse...

Claudinha ... linda e densa! O texto não admite outro posicionamento senão concordar ou discordar. Eu quero que me perdoe por "subir no muro", pois acho que a vida não é feita só de coisas assim binárias, como certo x errado, preto x branco, etc. A vida tem matizes variados e perceber isso é o que de melhor pode acontecer a alguém. Estar feliz ou infeliz é quase sempre efêmero e, assim, não deveria mudar nossa visão de vida de forma tão intensa. Eu procuro viver de modo que a muitos - inclusive de quem me antecede no comentário - pode parecer conformista ou resignada: ter momentos menos felizes (ou infelizes) me dá oportunidade de valorizar os momentos mais felizes ou de intensa felicidade. Bobagem? Pode parecer, mas não é não! Sem perder a noção da realidade, sem deixar de reconhecer pela minha própria "régua" os valores de quem me cerca, busco encarar as dificuldades com menos preocupação; as "maldades" que me fazem eu trato como antídotos, anticorpos ou vacinas que me permitem continuar em frente sempre. Percebe do que estou falando? De ser feliz! Nada de ingenuidade, acredite. Não sou poeta e consigo te entender. Não sou cruel ou "do mal" e consigo aceitar que o mal existe - e me precavenho dele sempre. Meu mundo - e não é aquele da bolha ascéptica - admite o convívio do bem e do mal. Eu vivo pelo bem, mesmo reconhecendo errar mais do que acertar. Compreendo o que minha linda amiga Claudia sente. Eu mesmo já disse a ela que "a ignorância é uma bênção". Mas, talvez eu devesse ter dito a essa brilhante menina que as pessoas que têm o ônus da inteligência e da cultura também - e principalmente - têm obrigação de serem felizes e mostrar, pelo exemplo, pela educação, que há esperança de uma vida melhor para todos. Já que, corajosamente, optou pela missão de lutar por minorias, recomendo colocar alegria na sua atitude, no seu rosto e nas suas palavras. Afinal, está no caminho do bem, independente do mal que a cerca. Claudinha é uma lider nata e eu torço para que ela um dia acredite que lideranças leves, otimistas e alegres são ainda mais eficazes.
Edgar

Rafa disse...

É possível ser forte sem perder a honra, a dignidade e a noção de certo e errado.

O que precisa ser feito é reconhecer as pessoas que não merecem o respeito e consideração que podemos dar, e nunca deixá-las passar a perna na gente. É o caminho mais dificil pra não acabar virando um zero à esquerda, mas é o único que pode ser considerado uma opção válida.

Beijo do Rafa!

Maurição disse...

Minha querida e amada amiga Claudia. O que você está a experienciar é o que os Mestres chamam de “Inverno Espiritual“. É quando chega o momento da sua verdade, o momento de decidir entre cumprir ou não cumprir a sua tarefa. Quando te afirmo que você está mais desperta do que imagina, você não crê. Lembre-se que independente da crença do indivíduo, quem beber cianureto certamente morrerá. A foto que você escolheu para simbolizar o seu momento é brilhantemente reveladora. Só as consciências despertas conseguem esta conexão entre o seu estado de espírito e a materialidade da existência e podem demonstrá-la para os simples mortais.
Você expõe de forma clara as suas inquietações diante da dualidade da existência material. Realmente para Anjos despertos a identificação das distorções inseridas no dia a dia os angustia, os inquieta.
A sensação de “despertencimento”, (será um neologismo?) é a forma que o seu ser revela a “síndrome do estrangeiro” da qual já lhe falei. É muito honroso para mim poder dialogar, trocar vivências com pessoa tão sensível quanto você. Observo que todo o seu texto volita sobre a coisa mais preciosa no indivíduo humano que é a sua autofidelidade. A fidelidade aos seus propósitos e à luta entre esta fidelidade e as pseudofacilidades oferecidas pelo lado menos luminoso da existência. Se eu não tivesse absoluta convicção da multiplicidade do ser e da sua multiexistência certamente já teria tomado o caminho das facilidades e iria me juntar aos chamados “espertos, sabidos e vencedores”. É o que no filme Star War é chamado de lado negro da Força.
Não vejo injustiça na vida, vejo contratos sendo concluídos, contratos que podem ser reformados a qualquer momento, mas que é necessário fibra para encarar esta senda.
Sinto que o seu coração chora. Mas sei que se fortalece com isto. Verga mas não quebra. Seres semelhantes a você não vieram para a superfície do planeta para “copiar” outros seres. Vieram para mostrar o caminho, vieram para ser o que melhor sabem ser, e reconhecem, embora sofram, que sempre estarão no centro da tormenta, no olho do furacão porque são os nossos amados FARÓIS.
Do seu eterno amigo, encarnado ou não.

Anônimo disse...

Claudinha,

fiquei lendo e relando, e agora fico pensando: teu texto está belíssimo, redondo, gostoso de ser lido, nossa língua não tropeça em nada dele. Perfeito.

Vou dar um link pra cá no Mude. Vou iprimir esse teu breve ensaio sobre o que é ser autêntico.

Volto depois para dizer mais.


A ousadia move o Mundo!

Vou escrever algo a respeito, inspirado no que você acabou de me dizer. Sobre as nossas deliciosas diferenças...

Fuja das pessoas perigosamente normais!


Abraços, flores, estrelas.


www.mude.weblogger.com.br


Edson.

Mel disse...

Um texto deliciosamente gostoso de ser lido, tanto pela intensidade das palavras quanto pela admirável sensibilidade ao engajar num trabalho crítico do nosso interior. Acredite: Identifiquei-me... :-)
Você está de parabéns! Foi para os Favoritos com certeza. Grande beijo! Mel

Anônimo disse...

Claudinha, linda e ... (deixa prá lá! ... rssss .... melhor calar!!)
Teu comentário peca pelo excessivo carinho que sinto vir de você. Mesmo assim, agradeço, de coração.

O que escrevi, o fiz com a preocupação não de corrigí-la, mas de sugerir um olhar mais abrangente e gentil sobre nós, seres humanos comuns que, como eu, erram e te deixam tão magoada - às vezes, desacorçoada.

Você tem muito a oferecer e não pode se dar "ao luxo" de sentir-se enojada ou de pensar em parar, desistir.

Basta-lhe a indignação como motivo para continuar em frente, agora com inteligência adicional para "compreender" as motivações dos outros e atuar com ainda mais eficácia. Acredite-me: você será imbatível, menina!

Quero ver um sorriso maravilhoso no seu rosto, sempre. Sorriso de quem sabe que luta o bom combate.

Cuide dos ferimentos e recupere as energias de que vai precisar sempre e cada vez mais.

Beijo.

Edgar

Tarasco disse...

Eae dona Cláudia, mora num lugar quente e maravilhoso e está faltando um poco de sol no teu coração? não fica assim guria. Bola pra frente e era isso. Bjão meu anjo!

Anônimo disse...

É isso aí, amiga...também é Inverno no meu coração e eu espero sair dele...
Mas custa muito, né?
E há pessoas que nos tratam mal e que, de algum modo, ainda nos fazem sentir culpadas!!!!
Obrigada por usares a minha foto, amiga :)
Um dia destes os nossos corações vão estar ensolarados outra vez...e cheios de paz.
Bjo grande,
Ana

Rod disse...

Clau,
Bem, não vou falar sobre o texto, lindo por sinal. Muito bem escrito. Até mesmo porque a gente já conversou sobre esse assunto. Vc sabe que eu te admiro muito, né? Cada vez mais!!!
Mas pelo que eu estou sabendo seu coração está deixando esse inverno rigoroso e começando a se aquecer né? Hmmmm isso é muuuuito bom!!!!! Estou muito feliz por isso porque te adoro!!!
Bjuxxxx no seu coração pra aquecê-lo mais ainda!!!!

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Minha família

My kind of Spirit...


You are the elusive Night Spirit.
Your season is Winter, when the stars are bright and frost crystallizes the fallen leaves.
You are introspective, deep-thinking, and mysterious.
Everyone is intrigued and a little intimidated by you because you have an aura of otherworldliness.
You work in extremes, sometime happy, other times sad, but always creative and philosophical.
You are more concerned with the unseen, mystical, and metaphysical than the real world.
Night Spirits have a tendency to get lost in themselves and must be careful not to forget reality, but their imagination is limitless.