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Comecei a escrever no momento em que percebi que só pensar não mais me satisfazia.

Precisava transbordar todo aquele pensamento que só ao meu universo de idéias pertencia.

Hoje, escrevo por pura necessidade, por irresistível vício e por agradável teimosia.




Claudia Pinelli Rêgo Fernandes ®



quarta-feira, dezembro 21, 2005

Feliz Natal?


Feliz Natal? by Claudia FernandesPosted by Picasa

Uma singela história de Natal - Lula Miranda

Não espere encontrar aqui uma dessas histórias exuberantes e comoventes de Natal. Ou mesmo essas histórias que, no final, trazem uma mensagem edificante, profunda. Aqui você não verá neve, trenó, tampouco um simpático senhor rechonchudo, ostentando farta barba branca e vestido de vermelho. Essa é apenas a história de um homem comum. E de um Natal também comum, como tantos outros. O Natal é uma efeméride que deveria servir como uma espécie de marco para um certo renascimento em todos nós, pois marca a celebração do nascimento de um homem bom, de um revolucionário. Tempos de mesa farta, presentes, celebração – infelizmente não para todos, mas decerto para alguns.

O nome do homem dessa minha história de Natal não é propriamente Cristo, é Souza. Um homem de seus cinqüenta e poucos anos. Um migrante. Viera do Nordeste. Já há bastante tempo. Quando chegara em São Paulo, era apenas um jovem cheio de anseios, cheio de sonhos. Seu maior desejo, seu grande projeto de vida, logo quando chegara na grande cidade grande, a megalópole, “a maior cidade da América Latina” (era o que se lia num velho outdoor à entrada da cidade), cidade que à época ainda abrigava os sonhos e anseios de tantos migrantes (e imigrantes), seu maior desejo, retomo o fio da meada, aquele objetivo até então inatingível e que prometera a si mesmo que algum dia alcançaria, era o de, um dia, depois de muito esforço e trabalho, claro, juntar dinheiro para comprar uma bicicleta e um rádio de pilha. Um sonho e um “projeto de vida” singelos aos olhos de muitos. Aos nossos olhos, por exemplo.

Hoje, passados mais de trinta e cinco anos daquele dia em que descera na rodoviária, um tanto amedrontado e “caipira”, é dono de um táxi “novinho em folha” (não um táxi de frota, desses que se paga diária ou aluguel pelo uso, mas um seu, próprio) e tinha conseguido comprar, não um rádio de pilha, mas um aparelho de som modular completo, daqueles mais caros, “de marca”, e havia, inclusive, veja bem!, acabado de adquirir um home theater. Portanto, a inatingível bicicleta tinha se transformado num automóvel com o qual ganhava o pão de cada dia. E, por falar em pão de cada dia, hoje tinha dinheiro para comprar quantos rádios de pilha e bicicletas desejasse. Mas as coisas nem sempre foram assim.

Já havia passado muita privação na cidade grande, desde que chegara do seu pequeno vilarejo no interior do Nordeste, muita necessidade. Hoje, podia jantar em restaurantes e churrascarias tipo rodízio – nada muito caro ou sofisticado, mas, sem dúvida, um progresso e tanto. No começo de tudo, nos dias de “vacas magras” chegara a ficar alguns dias sem comer. Já, inclusive, e isso era um segredo que não contara (e não contaria jamais) nem mesmo à sua esposa, dormira algumas semanas (na verdade, meses) ao relento, nas ruas, embaixo das marquises dos prédios no centro da cidade. Nem gostava de pensar nesses tempos idos. Isso tudo havia ficado para trás, coisa do passado. Passou.

Porém, esses tempos voltaram um dia. Voltaram em sua memória, como uma doída lembrança. Naquele dia de chuva, dia de Natal em que fora a um shopping fazer as compras natalinas; comprar os presentes da família como fazia todo ano. Esse ano, porém, escolhera um dos shopping mais chiques da cidade. Acabara de ganhar um cartão de crédito Gold do gerente do banco em que fizera o financiamento do seu imóvel e queria “inaugurá-lo”. Sim, além de um carro quase “zero quilômetro”, tinha agora a tão sonhada casa própria – em hipoteca, é bem verdade, mas para todos efeitos, própria.

A lembrança daqueles dias sofridos voltaram, naquele instante, e machucaram muito a sua alma, quando, ao perceber que, de posse daquele cartão dourado de plástico, poderia comprar o que desejasse, o que escolhesse naquelas vitrines coloridas e iluminadas. Aquele era um poder que jamais tivera. Uma sensação que jamais experimentara. Poderia comprar, não mais somente um ordinário rádio de pilha e uma bicicleta, mas o que desejasse – inclusive, até mesmo um carro novo se assim quisesse. Porém, aquela sua nova realidade o remeteu abruptamente de volta ao passado. Lembrou-se então dos dias em que não tinha dinheiro para comprar absolutamente nada. Nada. Só quem já passou, algum dia, pela privação total sabe o que é essa sensação.

Prosseguiu caminhando pelos corredores do shopping olhando as vitrines, mas já nem enxergava as mercadorias ali expostas, apenas “via” em seus pensamentos o filme da sua vida.

Passado e presente se embaralhavam. Andava, meio que a esmo, imerso naquelas lembranças.

As lágrimas, numa constrangedora autonomia, teimavam em escorrer pelo seu rosto. Ele, inutilmente, as tentava disfarçar, dissimular. O Natal é uma época triste – resignava-se. Recomposto, pôde seguir adiante e comprar os presentes da esposa e dos filhos. Para ele próprio, não sabe bem o porquê, comprou apenas um singelo rádio de pilha.

Ao sair do shopping, com seu táxi quase “zerado”, já de volta, no caminho para casa, percebeu o que de tanto ver já não mais enxergava: dezenas de famílias espojadas nas sarjetas, encolhidas/acolhidas em pequenas malocas feitas de compensado e de um lona plástica preta, ou deitadas em finas caixas de papelão. Ao passo que seu veículo seguia nas ruas, deslizando no asfalto molhado, preto e reluzente como as lonas plásticas que encobriam aquela miséria ali tão exposta, ele começou a se impressionar, e a se incomodar, com aquele cenário degradante. Eram muitos os infelizes naquela noite chuvosa de Natal, agora se dava conta.

Foi aí que ele viu um grupo, decerto uma família, reunido em torno de uma fogueira onde tremelicava exígua e teimosa chama com seu frágil fio de luz. Nesse grupo, ele notou um homem velho, todo sujo, alquebrado e maltrapilho, de uns setenta e poucos anos – por certo, era o patriarca daquela família. Desceu do carro então e, sem se anunciar, caminhou decidido em direção àquele velho homem e lhe entregou a caixa onde estava embrulhado para presente o rádio de pilha que comprara no shopping. Era o seu singelo presente de Natal. Era a sua singela história. Comovido, conseguiu dizer-lhe apenas: “Feliz Natal, meu velho. Feliz Natal”.

(Feliz Natal, meus caros leitores. Feliz Natal)

Lula Miranda

Precisa fazer algum comentário??

Bjo.

Música: Starless do King Crimson.

2 comentários:

Rod disse...

Muito bom Cacau!!
Sem querer ser redundante, mas já sendo, um feliz Natal e um Ano Novo maravilhoso pra vc e toda a sua família.
Bjuxxx no coração

Maurição disse...

Oi Claudia,
Não vou comentar, apenas me emocionar. Boas festas e parabens pelo premio que ganhou. Como sempre muito discreta. Ser seu contemporâneo é sem qualquer sombra de dúvidas um privilégio, agradeço ao meu bom Pai/Mãe por isto. Te lguei no Natal mas não fui feliz e nã consegui falar com você.
Mais uma vez parabens e boas festas.

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My kind of Spirit...


You are the elusive Night Spirit.
Your season is Winter, when the stars are bright and frost crystallizes the fallen leaves.
You are introspective, deep-thinking, and mysterious.
Everyone is intrigued and a little intimidated by you because you have an aura of otherworldliness.
You work in extremes, sometime happy, other times sad, but always creative and philosophical.
You are more concerned with the unseen, mystical, and metaphysical than the real world.
Night Spirits have a tendency to get lost in themselves and must be careful not to forget reality, but their imagination is limitless.